quarta-feira, 13 de março de 2013

Demónio


Os seus olhos já se apresentavam vermelhos e derrotados ao se aproximar de mim, e ainda sem um bem compreendido início de frase, atrapalhado pelo silencioso soluçar, escorreram de forma descontrolada penosas lágrimas.

Foi intervalo, o jogo estava a correr bem para a equipa por quem nutro fervorosa simpatia e decidi ir fumar um cigarro à rua. Não era de meu habito vir a este café e por falta de assiduidade era justificável a falta de empatia,não só por parte dos gerentes e funcionários como também dos habituais clientes da casa, o que não impedia de trocar gratuitamente, um ou outro típico comentário futebolístico.

Ao sair ajudo uma senhora a abrir a porta, já que de uma mão ocupava-se com um cesto de plástico e na outra com o seu telemóvel que pressionava contra a sua cabeça, numa conversa de que pouco ouvi já que evito tais invasões de privacidade, por mais alto que as pessoas tendem a falar durante uma chamada no meio da rua, de cabelo moreno esvoaçante e de baixa estatura, aparentava uma personalidade forte, que me dava a entender ser a gerente. Rápido entrou na porta do edifício que partilhava a parede com o seu café, provavelmente o armazém, e dela pouco soube durante praticamente todo o cigarro, que me ajudava a pensar se na segunda parte o jogo continuaria a correr bem.

E eis que ela voltou, numa triste imagem em que ninguém gosta de ver uma mulher, e tão pouco eu. As lágrimas insistiam em não dar tréguas e mesmo sem conseguir expressar-se de forma clara, entendi que queria que lhe fechasse a porta que por trás dela ficou aberta, já que o cesto que antes levara vazio, vinha agora cheio de latas de vários tipos de refrigerantes e a exigir a força dos seus dois braços para o sustentar; prontamente livro-me do cigarro e tento duma forma atabalhoadamente cavalheiresca ajudar, primeiro fechando a porta e logo de seguida ajudando-a a pousar o pesado cesto numa mesa de esplanada.

Ver uma mulher chorar deixa-me num estado de incompetência sem igual, fico sem saber como agir, o que dizer, quase que o cérebro me abandona, logo naquele momento precioso em que deveria pensar rápido para poder agir e acalmar aquela a quem a tristeza tomou posse. Deveria saber dizer o correcto, tal como palavras encorajadoras e animadoras, mas ali vejo-me contra um invisível inimigo pelo qual o respeito se eleva a medo, esperando algo que desconheço mas que me impele a ficar apenas calado a olhar.

Os silenciosos soluços abrandaram e finalmente articula uma palavra "Obrigada" à qual respondo com um nervoso sorriso. Então ela continua -Não sou assim, não me costumo ir abaixo desta forma, soluçando novamente, -Não sei o que sentir neste momento. De nada vale a postura de mulher forte e destemida, aquela de quem perdeu um marido muito nova e que mesmo com duas crianças, praticamente ao colo, levantou a cabeça e jurou para si mesma que os seus filhos de fome ou necessidades não iriam passar. Já não sou aquela menina de 23 anos que se vê a enterrar o marido e no dia seguinte, após limpar as ultimas lágrimas derramadas saiu de casa para dar um futuro aos seus filhos. Mas hoje não consigo mais, não tenho mais forças e não consigo manter tal valente postura, abate-me de tal forma o espírito ao saber que a mulher que de tantas vezes mostrou ser dona de um orgulho e de uma coragem sem igual, que aprendi a respeitar e a admirar, cai por terra, cede contra o mesmo adversário que levou o seu filho.

Acendo outro cigarro e mantenho o meu silencio, atentamente.

E ela continua-Durante anos não falamos, depois, com a necessidade intima de voltar a ter contacto, combatemos de forma disfarçada, encorajadas pelos nossos orgulhos que tanto e sempre chocaram. Parte fraca nunca dei, e dela também nunca a tal se rebaixou. Mas tal ódio dissimulado e disfarçado era o que nos unia, o que nos dava forças de continuar de queixo bem levantado. As duas o perdemos, um amor diferente mas ambas o amávamos, e aquele demónio sem nada nem ninguém esperar aparece e leva-nos o nosso maior tesouro –Dos seus olhos nem uma lágrima já se avistava, apenas aquele cor ardente que tão cedo não iria desaparecer- Aquela mulher sempre mostrou uma força sem igual, e eu admirava-a, nunca lhe disse mas não o precisava, a forma como me falava, tratava, demonstrava que não só sabia como me mostrava merecedora de tal infame relação que sempre tivemos. O perfeito amor ódio que me fez aos 23 anos, na altura uma miúda que ainda não tinha assimilado a palavra viúva, uma mulher forte e sem medos, e por isso lhe estou grata. Mas o demónio tinha que voltar, horrendo espectro de desgraça e sofrimento, insaciável e sem respeito retirou-lhe a garra e a força de viver. Ao telefone disseram-me as ultimas, não sabem quando, mas será breve, cedo. Cedo de mais, como o meu amor- Neste momento entendo que de algum modo transmiti-lhe a confiança necessária para que abrisse o seu coração magoado e revoltado-Terei que respirar fundo, e mais tarde poderei novamente pensar nela e o que ela foi, agora do jeito mais fingido que a coragem me permitir, terei que usar esta mascara de continuar o meu dia- voltou a pegar no cesto e desta vez com um ligeiro sorriso de aparente alivio, repetiu a mesma palavra com que iniciou tal desabafo "Obrigada" e seguiu porta dentro, deixando-me sozinho e imóvel, desta vez sem pedir ou precisar de ajuda empurrou com as costas a porta de vidro do café, mostrando aos seus clientes e funcionários a mulher forte e orgulhosa que conhecem.

3 comentários:

Diana disse...

Muito bom! O pormenor da descrição faz automaticamente desenrolar um filme na imaginação de quem lê.

Anónimo disse...

ate fiquei sensibilizado....a maneira como descreves...transportas o leitor no tempo e no espaço para o momento em que decorreu a acção...muito bom...senti me como se estivesse lá a ver o momento de interecção entre voçes os dois....
parabens
bruno castelo

Anónimo disse...

Orgulhosa de ti, parabéns e nao páres agora de escrever...