segunda-feira, 18 de março de 2013

O Gato



O gato viu-se sozinho, talvez abandonado e deixado à sorte, mas isso de pouco já lhe interessava porque a noite aproximava-se e com ela vinha o escuro e o frio. Pela primeira vez depara-se com a necessidade de procurar comida e, principalmente um abrigo.
 Foi encontrando o que, com alguma dificuldade, lhe ia enganando a fome e uma ou outra vez alguém lhe dava uma refeição. Apesar da dificuldade o gato recusava-se a passar por pedinte e com alguma incerteza se o devia fazer, aceitava a comida que lhe davam. Isso podia-lhe encher o estomago, mas não lhe chegava, quem lhe matava a fome, ia tão depressa embora como ali tinha chegado perto dele, e não o acolhiam. O gato apenas mais queria era uma oportunidade de retribuir tamanha caridade, prestar o seu serviço como gato, aquela companhia e carinho que ele sabia tão bem fazer, mas ninguém o queria, ninguém o acolhia.
 Os dias foram e vieram, até que ao passar junto de uma velha casa uma agradável senhora, de pobre mas humilde aparência, o chamou e só não lhe deu comida como ainda o presenteou com umas agradáveis e tão saudosas festas pelo dorso. Pensou que seria ali, que finalmente teria a casa que procurava, mas a simpática senhora pouco depois entrou dentro de casa e não o levou. Todos os dias tinha ali comido e por uma ou caricia, tinha encontrado um canto onde se abrigar durante a noite e para ele isso chegava, não podia exigir mais, nem devia. A pobre senhora apesar de algumas dificuldades não se importava de oferecer um pouco do que era seu para ajudar o agora pobre gato.
Numa manhã o gato chegou, com a sua já habitual pontualidade, para mais uma primeira refeição do dia, o que já se tinha tornado hábito ali estar à sua espera junto do portão da casa, mas desta vez viu, a que já considerava sua, taça vazia. Apesar de estranhar decidiu esperar, porque qualquer atraso era compreendido e aceite sem reclamação. O sossego da sua espera foi subitamente interrompido por uma matilha de cães que portão a dentro entraram assustando com agressivos latidos e perigosas investidas. O pobre gato fugiu e trepou a árvore mais próxima o mais rápido que as suas pequenas patas lhe permitiram, refugiando-se no meio da folhagem assustado, ali ficou então a assistir ao que se desenrolava. Viu então a simpática senhora sair de casa, curiosa com o barulho antes provocado pela matilha, mas essa já se tinha escondido ficando apenas junto ao portão dois cães adultos e muitos cachorros. A senhora por espanto e pena do cenário que ali se apresentava à sua porta num só passo volta para dentro de casa e volta com comida, muita comida, mais do que aquela que alguma vez o gato ali tenha recebido, deixando-a ali para que os cachorrinhos comessem alguma coisa, voltando então costas e desaparecendo de vez pela porta da velha casa. A matilha volta em força e devoram toda a comida que ali se encontrava.
O episódio foi se repetindo dia atras de dia, e o gato acabou por se ver obrigado a partir para procurar comida num outro lugar. Por espanto viu, enquanto se ia escondendo, a mesma matilha a fazer o mesmo que tinham feito à caridosa senhora que lhe dava comida, nas casas da vizinhança. O mesmo método, várias vezes por dia, não deixou de reparar que a cada vez que os encontrava parecia ver muitos, e cada vez mais, cachorros.
Daquela vizinhança fugiu, pela fome e pela insegurança, e numa outra finalmente conseguiu paz e alguma comida. Não tanta nem com tanta afluência como antes, mas sempre lhe evitava a fome.
 Infelizmente, e para espanto do gato isso foi breve, outros cães apareceram, de raças completamente diferentes da matilha que antes lhe tinha roubado a comida, mas que ali também o mesmo lhe faziam. Nada lhe deixavam excepto a fome e o medo.
E mais uma vez fugiu, para bem longe. Até ao dia em que muito fraco e cansado, faminto e sem nada para comer alguém o acolheu. Pouca força tinha para miar ou fugir, não sabia o que lhe iriam fazer ou para onde o levariam mas isso já não lhe interessava.
Mas era o que tanto queria, uma casa, uma família, deram-lhe comida e ele já podia-lhes retribuir com afecto e companhia, como um gato tão bem sabe fazer.
Algum tempo depois o gato viu de cima do muro que rodeava a casa, que agora também era sua, e onde gostava de apanhar sol e observar o que se passava em redor, vizinhos que se lembrara de que antes davam o que podiam a um ou outro animal que lhes aparecesse com fome a afugentar os cães e os muitos cachorros que com eles andavam. Viu também os outros cães de diferentes raças a roubar comida de lojas e casas e que também agressivamente eram corridos.
Enquanto alguns passavam pelo muro, o gato decidiu finalmente lhes falar e perguntar porque o faziam, porque não procuravam antes, tal como ele tanto procurou, uma casa e um dono que bem deles tratasse o qual apenas teriam que retribuir como melhor pudessem. Os cães em tom de arrogância responderam, que donos não queriam nem nunca iriam ter. Deles para nada precisavam e que comida as pessoas teriam que lhes dar, por ser seu direito, que tal como os outros, como o gato, recebiam comida, eles também a teriam que receber, exigiam os cães.
Cada um procura o seu lugar neste injusto mundo, para a maioria a injustiça não tem limites mas aqueles que não desistem e lutam pelo seu lugar com esforço e orgulho vão enfrentando a injustiça. Outros acham-se acima de tais esforços e que para conseguirem alguma coisa de muito não precisam de fazer.
Cada um procura o seu lugar mas poucos sabem qual é o seu.

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